3/02/11

(Español) Manu Chao faz show no Recife nesta quinta

Atualmente em turnê no Brasil, ele já levou a apresentação para os EUA e Japã

A malemolência de Manu Chao

Da Folha de Pernambuco

Há dez anos, foi uma extrema comoção quando anunciaram um certo show de Manu Chao na Praça do Arsenal da Marinha, Bairro do Recife. Gratuito, um dos maiores nomes do reggae mundial se apresentou cheio de graça e malemolência, dando a impressão de ser daquele ar­tis­tas que sentem a necessida­de de estarem juntos do públi­co. O mais próximo possível. E com os fãs brasileiros, esse fran­cês, que hoje se diz meio nômade, essa relação foi se tornando cada vez mais estreita. Vez por outra ele está pelo Brasil, e desde o show de 2001, ele já esteve no Recife algumas vezes. A última foi em 2009, durante o Carnaval. Hoje ele retorna mais um vez, para apresentar o novo show , « La Ventura », no Clube Português.
O cantor, que se apresentou em João Pessoa no último final de semana, montou esse show especialmente para participar da Virada Cultural de São Paulo do ano passado. O resultado aca­bou sendo tão gratificante, que ele ajustou sua turnê mundial ao formato daquela apresen­tação. Acompanhado por uma guitarra e uma bateria, Ma­nu Chao já mostrou o show nos Es­tados Unidos, Japão e Londres. Os músicos que o acompanham, Madji (violão e guitarra) e Gambacito (bateria) são, inclusive, velhos parceiros: tocaram com o cantor na Radio Bemba, banda que acompanha Manu desde 1990. Gambacito também tocou na Mano Negra, a banda que lançou Manu Chao nos anos 1980.

Passeando pelo reggae, hip hop e pelo rock, o sucesso de Manu Chao no Brasil veio com o disco « Clandestino », lançado em 1998. Apesar da tímida recepcção inicial, o álbum acabou sendo um grande sucesso na França e na América Latina, em especial no Brasil. Suas letras, de tom politizado, misturam inglês, francês, espanhol, galego e português, e faixas como « Desaparecido » e a « Clandestino » tocaram bastante nas rádios brasileiras

O show de hoje vai passear pelo vasto repertório do francês. Canções como « Minha ga­lera », « El sur », « Eldorado 1997″, « La primavera », « Me Gus­tas Tu » e « Clandestino » têm presença garantida. Atualmente em temporada no Brasil, onde fica hospedado na ca­­sa de amigos, o cantor vem dan­­do atenção especial volta­dos para a guitarrada e o carimbó de Belém do Pará, apesar de ainda não ter planos pa­ra um novo trabalho.

ABERTURA

As bandas King Size e Madei­ra Delay são as responsáveis por abrir o show de Manu Chao ho­je, a partir das 20h30. A King Size, formada a menos de um ano, busca influência no dub para apresentar versões de bandas como Horace Andy, Massive Attack e White Stripes. Já a Madeira Delay ata­ca de samba e funk em versões de Seu Jorge, Otto, Chico Science e Capiba.

Serviço

Show do Manu Chao, « La Ventura »

Hoje, a partir das 20h30

Clube Português do Recife

Não tente fazer perguntas a Manu Chao que envolvam datas, números ou locais.

Lembrar das coisas, assim, de cabeça, não é o forte do músico francês. « Tenho uma memória meio maconheira », ri, em conversa por telefone com o Diario, da casa de praia de Bi Barone, baixista do Paralamas do Sucesso, em São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte. As apresentações de Manu (que se pronuncia fazendo biquinho) com o show La ventura começaram no Nordeste no último fim de semana, quando ele tocou em João Pessoa. O show que fez na Paraíba é o mesmo que ele já levou para o Japão, Estados Unidos e Europa e traz nesta quinta para o Clube Português. A banda que o acompanha tem uma formação enxuta: Madjid Fahem, na guitarra e violões, e Philippe Teboul, na bateria.
Mesmo não tendo uma memória muito boa, Manu Chao lembra com carinho do antológico show que fez no Recife há dez anos, na Praça do Arsenal. « Na verdade, adoro fazer esses shows de graça para a galera. Faço sempre que é possível. Tocamos em Nova Descoberta, há uns dois anos e foi ótimo, apesar de ter chovido. Foi muito intenso », lembra. Em La ventura, Manu Chao faz um apanhado da carreira, desde a época da Mano Negra, a banda que montou com o irmão na década de 1980 e virou referência na França pela mistura de ritmos e etnias, algo incomum na época.
A música que faz é sem fronteira de sons ou línguas – ele canta em francês, espanhol, português, inglês e até em árabe. Suas letras falam de amor, liberdade, um mundo mais justo socialmente, o fim das barreiras de imigração e, claro, a legalização da maconha. Mas não é música cabeça: é para dançar.
Apesar de já ter apoiado o movimento Zapatista no México, Manu não se considera, politicamente, um anarquista. « É uma palavra que não é tão fácil de se definir. Há várias maneiras de defíni-la. A que eu mais me encaixo é naquela definição que leva uma hora para ser discutida, numa mesa de bar e com uma garrafa de cachaça », brinca.
Um novo disco ainda não está nos planos do músico. O último projeto musical em que ele se envolveu foi com a rádio La Califata, que fica dentro de um hospital psiquiátrico, em Buenos Aires. « Os pacientes gravaram um disco ao vivo comigo, durante um dos programas da rádio », explica Manu. Ele ainda não sabe até quando fica no Brasil, mas deve encerrar a turnê no próximo dia 13, em Brasília. « Estou vivendo numa caminhonete, não sei bem para onde vou depois », diz. Destino certo mesmo, só amanhã à noite, o Recife. « Vai ser uma boa farra com meus amigos do Recife », diz.

Por Carolina Santos, do Diario de Pernambuco

Leia a cobertura do show de Mano Chao em João Pessoa,

publicada pelo jornal O Norte:

Foi como celebração multicultural que as areias da praia de Tambaú receberam Manu Chao para dar adeus à edição 2011 do projeto Estação Nordeste. Adeus com cara de até breve, com o simbolismo cigano presente nas canções do francês que tem sangue espanhol e um sentimento de cidadão do mundo. No público, a expressão era também diversa: etnias, línguas e sotaques fundiam-se na festa que tomou forma de acampamento de verão e celeiro de alegria. Manu é chamado de « Mani » na França, em suas músicas ele diz ser a « calle » (rua), mas é mesmo a cara do mundo.
Bastaram dois violões e uma bateria para iniciar o show poucos minutos depois das 22h. As músicas do « galego » são irreverentes, dançantes e algumas trazem o som forte de protesto. Manu Chao danava-se no embalo das canções, enquanto, do outro lado do palco, Madjid Fahem dava o tom das melodias de cor espanhola, cigana, flamenca, em solos irretocáveis. Manu cantou em espanhol, francês, inglês e sem deixar de arriscar-se no português, ou « portunhol », como ele mesmo diz em Giramundo. Uma mistura que melhor define o espírito dos andarilhos de sangue latino da época das caravelas e dos dias atuais.
Com arranjos diferentes das gravações originais, Manu Chao puxava o coro que entre os paraibanos foi mais forte em Desaparecido, Me gustas tu, Dia de luna, dia de pena, Mentira e Clandestino, esta última que dá nome ao disco de 1998 que foi muito bem recebido no Brasil. E outras tantas canções foram também acompanhadas pelos europeus, africanos e latinos que fizeram de João Pessoa uma parada de destaque no roteiro de verão. E quem não conhecia alguma delas não deixou de ser contagiado pelo ritmo, de cantar junto o refrão Arriba la luna Ohea… e entrar na festa.
Não foi um show comum, não havia roteiro de canções e a empolgação do público era sustentada pela empatia de Manu e os outros dois músicos. A estratégia foi simples: acelerar um pouco as músicas para, assim, provocar a euforia do público, sem deixar de surpreendê-los. Lá pelas tantas, Madjid Fahem sacou de sua guitarra e trouxe a mistura do rock com as tradições latinas, comandando a vibração de todos com a ponta da palheta.
Mas houve quem sentisse falta da Radio Bemba, projeto montado por Manu depois de sua saída do grupo Mano Negra. Decerto que um grupo circense, mambembe entrou no palco com malabares, pernas de pau e homens cuspindo fogo. Ouvir Bongo Bong e Welcome to Tijuana sem os samples, metais e rica percussão não agradou o estudante Hildebrando Gomes. « Achei que fosse a banda completa », disse sem esconder que aproveitou muito o show, o bis, e o « bis-do-bis ».
Isto mesmo, por duas vezes Manu despediu-se do público paraibano, mas poucos ousaram « arredar o pé » e clamaram por mais música. Quase à beira do palco, uma boina azul agitava-se sem descanso a cada nova música e novo ritmo. Um senhor já grisalho fez inveja à garotada e sustentou o fôlego e animação durante as quase duas horas e meia de apresentação. A « maratona » foi passando sem deixar vestígios e, batendo com o microfone no peito, Manu fazia soar mais alto a pulsação que embalou o último sábado de janeiro.
Voando veio e voando se foi Manu Chao. Correr é o destino dele, clandestino e errante. Canta o som de sua gente e sua terra, que é todo mundo e uma coisa só. Grande estilo para celebrar a estação mais quente do ano, para receber os tantos turistas que estão na cidade, e começar o ano com os pés firmes na longa estrada, « por la carretera… ».

(por Demócrito Garcia, do jornal O Norte)