Quem compareceu no Arena Futebol Clube na noite do dia 16 de janeiro em Brasília, pôde apreciar um grande momento experimental de músicos reconhecidos internacionalmente. Estavam no palco um poderoso trio de artistas brasileiros, compondo uma formação muito rica em criatividade e com uma pegada contagiante – Bnegão, Bi Ribeiro e Bidu Cordeiro. Somando à apresentação do embrionário 3Brio, nada menos que o cosmopolita cantor Manu Chao, com sua marcante presença e músicas que buscam representar uma visão dos/das imigrantes, precários/as, clandestinas/os e algumas outras realidades das ruas e subúrbios globais. Mais além do excelente espetáculo musical, algo único, interessa apontar outras características que fizeram e fazem de shows como este uma grande oportunidade de atuação política e espaço para projeção e visibilidade de lutas diversas de resistência contra a opressão capitalista e o seu alcance, seja em nossas comunidades ou mesmo em uma perspectiva globalizante.

É importante dizer que, longe de vangloriar artistas ou mesmo projetá-los/as em uma relação fetichizada, convém aqui apresentar a força que indivíduos com certa notoriedade e exposição podem contribuir em causas às quais eles apóiam, mesmo à distância. Causas estas que necessitam romper o bloqueio midiático corporativo e alcançar mais pessoas e grupos.

Manu Chao e Bnegão já são reconhecidos por suas posições divergentes e antagônicas ao Modus Operandi artístico do chamado Mainstream. Bnegão e o grupo Seletores de Frequência lançaram seu álbum Enxugando Gelo utilizando uma licença livre – Copyleft, um trocadilho com a palavra Copyright – disponibilizando o trabalho na internet. É uma concepção diferenciada de como a produção artística e a sua difusão e compartilhamento devem se dar em um mundo que busca romper com o domínio pleno do capital. É uma afirmação clara de que o lucro e o acúmulo não devem preceder o criar artístico e nem ditar os rumos a se tomar. Atualmente o músico está desenvolvendo um projeto de fazer shows em presídios do Rio de Janeiro: ocorreram 10 apresentações no ano passado e pra este ano, além dos shows existe uma proposta de construção de bibliotecas nos presídios.

Por sua vez, Manu Chao têm sido desde o lançamento de seu primeiro trabalho solo Clandestino uma referência musical para novos/as ativistas e militantes altermundistas que emergiram desde Seattle, em 1999. Tocou em momentos chaves dos dias de ação global como em Gênova, em 2001, e em Fortaleza, durante as manifestações Anti-BID em 2002. Está envolvido atualmente com a rádio La Colifata, na Argentina, que é um projeto de trabalho com internos/as de um hospital Neuropsiquiátrico. Além de seu trabalho solo, todavia, Manu Chao tem como antecedente o grupo Mano Negra, importante referência na cena underground política mundial.

Foi necessário contextualizar um pouco a trajetória de ações políticas dos músicos em questão para não parecer totalmente desconexos discursos e posturas como o que aconteceu em Brasília. Algumas horas antes do show, os dois receberam jornalistas independentes e ativistas do CMI para um bate-papo e entrevista. O CMI é um projeto de resistência midiática anticapitalista, e tanto Bnegão quanto Manu Chao sabem muito bem disso. Liberaram o registro de algumas partes do show e sua subsequente divulgação. Na entrevista os dois músicos trataram de seu envolvimento com música e ativismo, falaram sobre seus projetos políticos e sobre como vêem que a música pode ser uma maneira de canalizar a raiva contra as injustiças do mundo em influências positivas rumo a uma sociedade justa. Acima de tudo a Esperança, falaram em uníssono os músicos.

Durante a apresentação, Manu Chao entrou vestido com uma camiseta do Movimento Passe Livre (MPL) – um movimento autônomo anticapitalista que luta por transportes efetivamente públicos servindo à população – que tinha ganhado de militantes poucas horas antes. Obviamente estava ali demonstrando seu apoio à luta. No final da primeira parte do show, o cantor chamou ao palco um ativista que apóia a resistência do Santuário Indígena dos Pajés, que sofre com a ameaça de despejo do Governo do Distrito Federal, atendendo às demandas infinitas da especulação imobiliária na capital. É bom que se diga também, que o vice-governador do Distrito Federal é Paulo Octávio, o maior investidor (especulador) imobiliário da região.

Após a intervenção do militante, Bnegão assumiu o microfone e emendou um discurso irônico indagando o porque uma pessoa como o Arruda conseguiu se eleger no DF mesmo após tantas denúncias e até mesmo provas de corrupção como o caso do painel do senado, e na sequência cantou acompanhado de percussão a música « Candidato Caô Caô » de Bezerra da Silva, que tem em sua letra o trecho – « Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer / Hoje ele pede seu voto amanha manda a polícia lhe bater… », muito aplaudida ao final.

Tudo isso pode soar superficial ou mais um artigo ou release artístico, o que não é a intenção. É preciso que criemos um ambiente saudável de resistência proveniente do meio artístico também. Utilizar estas estruturas massivas taticamente e buscar construir outras relações neste caminho, contando com maior adesão popular destes meios. Não há como negar que a produção local, descentralizada e que atenda às diferentes realidades talvez seja mesmo o ideal, com relações mais aproximadas e alcance limitado, não gerando um distanciamento surreal e intangível entre os produtoras/es de conteúdos simbólicos e artísticos e suas virtuais consumidoras/consumidores. Alguém próximo realiza a crítica direta, intervém, participa, soma. O que não podemos é negar as estruturas reais e determinantes em que estamos inseridos/as e como elas nos são apresentadas como as únicas viáveis, mesmo que não sejam. E dada a urgência desta realidade, ficar simplesmente à margem pode representar um mero subterfúgio.

Ocupar de forma consciente estes espaços parece uma tática viável e que pode gerar frutos como a difusão em um maior nível de abrangência. Isso sem contar o valor artístico da produção, como o caso destes excelentes músicos. Vale lembrar que os dois ativistas da música participaram de cenas underground antes de realizarem estes trabalhos, mantendo vínculos com essas cenas até hoje. Poderíamos arriscar dizer que se trata de uma das possíveis formas de trabalhar a cultura underground. Uma forma heterodoxa, ousada, mas não por isso menos válida.

Manu Chao e Bnegão não são os primeiros/as primeiras artistas a participarem do mainstream a assumirem uma postura política dentro e fora dos palcos. Se remontarmos à história teremos diversos nomes de relativo peso, como Rage Against the Machine, Asian Dub Foundation, Le Tigre, Public Enemy, System of a Down, Bikini Kill, Bjork, Chumbawamba, Atari Teenage Riot, além de bandas e cantores de outras gerações como Quincy Jones, Tupac, Bob Dylon, Joan Baez, Café Tacuba, Afrika Bambaataaa, Jonh Lennon, Gill Scott Heron, Fela Anikulapo Kuti, entre outros. No Brasil, bandas como Mundo Livre S.A., Nação Zumbi, boa parte dos grupos do movimento Hip Hop (Racionais MC’s, GOG, Facção Central, Consciência Humana, DRR, DMN, entre uma infinidade de outras), Bezerra da Silva, e uma série de musicistas e bandas envolvem-se com projetos políticos e colocam-nos nos conteúdos de suas músicas, de modo que fazer uma lista completa e representativa seria praticamente impossível (sequer tratamos decentemente das bandas vinculadas ao Punk e Contraculturas em geral). Na América Latina dos anos 60 aos 80 tivemos ao menos uma centena de grandes nomes ligados aos movimentos de base diversos e em processos e estágios de luta únicos, como é o caso da Nueva Canción Chilena e as/os musicistas que apoiaram a resistência sandinista na Nicarágua, pra citar alguns exemplos.

O importante é perceber que a vinculação entre música e ativismo/militância política aconteceu e acontece em diferentes momentos da história, em lugares e ocasiões muito diferentes, demonstrando que essa associação é um caminho válido na construção de movimentos sociais e lutas contra a opressão, seja ela qual for.

Existem também projetos de militância entre músicos, como o Axis of Justice, idealizada por Tom Morello (RATM e Audioslave) e Serjei Takan (System of a Down). Trata-se de uma organização não-lucrativa com o propósito de fazer uma ponte entre artistas e fãs com organizações ativistas que lutam pela justiça social. Há sempre uma banca da Axis of Justice nos shows das bandas que apóiam o projeto. Além disso, militantes das organizações locais, onde os shows são realizados, sobem ao palco pra falar de suas lutas e como os/as fãs podem integrá-las. O projeto faz uma interessante conexão entre as bandas, fãs e ativistas.

Mais artistas devem assumir posturas mais firmes nas trincheiras da resistência cultural. Reservar à atuação possível apenas a gravação de músicas com conteúdo crítico não basta, isso é muito facilmente absorvido pelas ânsias de bens consumíveis pelo mercado, e a cultura é uma oceano de possibilidades para a nova fase do capitalismo, na qual a informação assume posição fundamental e decisiva. Não existem saídas certeiras ou respostas corretas para uma atuação nesta área, isso deve ser buscado no cotidiano e nas situações onde a/o artista se envolve diretamente ou observa com certo cuidado à distância. O que deve ser dito aqui é que artistas como Manu Chao e Bnegão merecem nosso respeito e apoio por suas posturas e produções.

Estes caminhos lembram, por fim, da estratégia zapatista em relação ao espetáculo das comunicações: foi a partir do uso inteligente de uma série de ferramentas de comunicação aparentemente « burguesas » ou viciadas que o movimento constituiu, em boa parte, sua guerrilha comunicacional. Uma série de ações em apoio ao Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) ocorreram em várias partes do mundo, organizadas por artistas que transitavam no mainstream, cenas underground, militantes de movimentos sociais diversos, entre outras. Por perceberem nestas iniciativas a possibilidade de abrir espaços de diálogo e divergência da ordem instituída, o movimento trabalhou essas ferramentas contaminadas contaminando-as. Não se trata de seguir paradigmas, mas este é um caminho que parece ser interessante de ser investido. Uma série de artistas – e dentre eles Manu e B – parecem estar experimentando-o, até agora com bons resultados.

Valerá darmos um passo a mais? Expor a urgência da existência de mais músicos assim talvez justifique este texto e desperte algumas sensibilidades ainda dormentes por aí…