18/12/07

Época – Brazil

« Para gravar, fumo um baseado. Para fazer show, tomo uma cachacinha »

Em entrevista a ÉPOCA, o músico francês Manu Chao defende a legalização das drogas

e fala sobre como cria suas músicas

Ana Paula Galli


Na rápida estada no Brasil, Manu Chao concedeu entrevistas e participou de programas de TV para divulgar o novo trabalho. As apresentações ficam para o ano que vem, quando o músico se apresentará na França e em seguida nos Estados Unidos e no Canadá. Por enquanto, o Brasil não está oficialmente no roteiro, mas Chao não descarta a possibilidade de estender a turnê para cá. « Sempre é tempo de tocar em terras brasileiras », diz.

La Radiolina possivelmente será o último CD gravado por Manu Chao, que pretende a partir de agora produzir esporadicamente canções para serem divulgadas pela internet. Nas faixas do novo álbum, os temas sociais prevalecem. Guerras, problemas econômicos mundiais e até a política fazem parte do cardápio. O principal personagem da música « Tristeza Maleza », por exemplo, é o presidente norte-americano George W. Bush.

Em entrevista a ÉPOCA, Manu Chao fala sobre música, pirataria, drogas, inspirações e sobre o futuro da humanidade. « Se a ditadura da grana e da competitividade continuar do jeito que está, que mundo deixaremos para nossos filhos? », afirma. Leia, a seguir suas opiniões sobre os principais temas.

Novos trabalhos

Gravei muitas coisas de 2002 para cá, participações. Nesse período, meu trabalho mais significativo foi um CD de blues, em francês, 24 ou 25 canções. O novo CD é uma surpresa. Cada ouvinte tem uma impressão diferente, uma interpretação única. Vários foram os temas tratados nas faixas do CD, em « 13 días » o tema é a ausência, « Politik kills » fala da violência política, muitas vezes se mata para conseguir o que se quer na política. « Rainin in paradize » é uma pequena fotografia de como está o mundo, com muitos problemas de violência, de guerra. « A cosa » relata uma briga de casal. Uma briga simpática! Tudo que me chama a atenção no dia-a-dia é parte do meu trabalho.

Inspiração

A vida é minha maior inspiração. Cada momento da vida pode se tornar em uma fonte de inspiração. Pode ser um momento ruim, um momento bom, uma injustiça, um raio de sol, uma brincadeira… Nunca se sabe como vai ser a criação. A criação é algo livre, sem limite, não tem método. Para mim, fazer música é sempre parte da casualidade da vida. Não sei fazer música com hora marcada. Não é assim que funciona. É a idéia que chega a qualquer momento. Nunca sabemos quando a idéia vai chegar. Não sou eu que mando na canção. É a canção que manda em mim. É o trabalho de cada dia. Quando chega a inspiração, tenho que estar pronto.

Cenário musical brasileiro

Carlinhos Brown, Lenine, Seu Jorge, Pedro Luiz e a Parede… Me inspiram e são também meus amigos. Mas falar de música no Brasil é um universo infinito. No Ceará, o que me encanta e me inspira é o trabalho dos repentistas. No Rio, é Bezerra da Silva. Mundo Livre S.A. também é excelente. O bom do Brasil é que, se você entrar em qualquer boteco, há um artista dentro. Isso é o que eu gosto desse país. Se você começa a tocar o vilão no boteco, em cinco minutos já está formada a turma e a banda já está montada. É um país com uma forte tradição musical.

Hip Hop

Não conheço muito o hip hop brasileiro, mas, na França, o movimento é muito forte. Não dá para entender o movimento da periferia francesa sem ouvir a música. Uma das precursoras, a NTM, é muito boa. Agora tem uma menina muito boa, de Marseille, Keny Arkana, que está fazendo um hip hop social muito interessante. Uma banda muito importante para mim, uma referência, é Public Enemy. Super urbano, meio amalucado. Assim é a cidade, assim é a periferia. O movimento do baile funk, tradicional do Rio, agora está sendo conhecido lá fora. É uma música muito interessante e que na Europa estamos ouvindo mais.

Brasil

Minha primeira vez no Brasil foi com Mano Negra e foi muito especial. Não cheguei pelo aeroporto, como a maioria das pessoas. Cheguei pelo porto, num barco cargueiro. Minha primeira relação foi com Rio de Janeiro, onde eu desembarquei. Depois da turnê, voltei e morei algumas temporadas na cidade, convivendo com mestres de capoeira. Foi nos anos 1990 e tive a sorte de sentir como é a vida do povo daqui. Fiquei muito apaixonado pelo Rio, mas nessas temporadas tocamos em muitos lugares, em São Paulo, no Nordeste. Aos poucos conheço o país, mas ainda falta muito, a Amazônia…

Influência da música brasileira

Minha música tem muita influência brasileira. Como eu havia falado, qualquer boteco que tem uma música, um violão, é uma experiência para mim e para a meu trabalho. Aqui todo mundo é músico. As pessoas realmente gostam de canções. Para nós músicos o Brasil é especial, qualquer lugar aqui é bom para cantar e para aprender. Cada lugar do Brasil tem sua própria cultura e ainda há muito o que aprender. Estar parte do meu tempo aqui é muito importante.

Questões sociais

Até hoje não conheci um lugar em que tudo vai bem. Sempre há um problema, situações tensas e injustas. Ilegalidade, corrupção, e tantos outros problemas que infelizmente afetam todo o mundo. As situações e dificuldades estão aí. É só colocar na canção. Todos esses problemas me dão muita dor, muita raiva, então minha terapia é colocar essa angústia para fora por meio das músicas. Para transformar a minha raiva em algo positivo, eu a transformo em música.

Movimento anti-globalização

Se sou realmente um militante, é para tentar deixar o mundo melhor para nossas crianças. A globalização econômica é algo preocupante. Cheira a suicídio coletivo. A sociedade está muito maluca, está criando muita tensão, muita pressão e tudo isso pode estourar a qualquer momento. Está cheirando a guerra e isso não é bom. Que mundo deixaremos a nossos filhos? Está fazendo frio no verão, calor no inverno. O mundo está ficando maluco. Isso faz muito mais gente começar a ficar preocupada. É uma corrida contra o tempo entre a loucura do sistema e o nosso instinto de conservação.

Quanto ao enfraquecimento do movimento, não acho que seja verdade. O que vejo é cada vez mais pessoas agindo. Cada dia tem mais gente preocupada com o futuro que vai chegar. A mídia é que deixou o tema um pouco de lado, está menos interessada, mas isso pode ser melhor para o movimento.

Pirataria

Hoje em dia, todos falam de pirataria como se fosse algo novo, quando a pirataria sempre existiu, antes com os cassetes, agora com os CDs. Sem dúvida está mais difundido, por causa da internet. Mas quando eu era adolescente, 95% da minha discografia estava em fita cassete, porque não tínhamos grana para pagar pelo vinil. A música está muito cara. Como falar para um cara de 15 anos que tem uns poucos reais no bolso que para ouvir música ele tem que pagar uma pequena fortuna em um CD? É normal que ele vá baixar na internet. Com os poucos reais que tem, e vai convidar a namorada para ir ao cinema. Também acho que o discurso das indústrias contra a pirataria é hipócrita. Eles falam que estão perdendo muito dinheiro com a pirataria, mas é mentira. Eles estão ganhando mais dinheiro que nunca, vendendo pequenas máquinas para a juventude piratear as músicas. iPod, celular, computador… Como músico, para mim não é um grande problema. Minha situação econômica e musical já é estável, isso não me preocupa. Mas para bandas que não são conhecidas e que precisam vender CDs, pode ser um grande problema. A venda de cada cópia é importante para dar de comer aos filhos. É um caso de vida ou morte.

A volta do Mano Negra e dos velhinhos do rock

Não sei se o Mano Negra volta. Não penso nisso. Penso que para o bem da saúde cultural do mundo, seria mais positivo que as bandas que enchem cinco dias seguidos o Maracanã sejam bandas de meninos de 20 anos. Isso seria positivo para o futuro da música, como foi nos anos 1960, 1970. Outros tempos. Quem enchia os estádios e reunia milhares de pessoas durante esses anos? Eram bandas novas, meninos de 20 anos, 25 anos, a cultura estava bem viva. E agora, quem enche? Os únicos músicos que conseguem encher estádios hoje em dia têm 50, 60 anos. Os mesmos de sempre. Tenho muito respeito por essas bandas, mas isso significa que a cultura da juventude não é reconhecida. E isso não é bom para o futuro da música. A renovação faz parte da lei da natureza.

Receita de música

Tem o show e a gravação, que para mim são dois momentos totalmente diferentes. Para a gravação, minha receita é fumar um baseadinho, antes de gravar qualquer coisa. Assim eu consigo dar mais de mim na música. Essa é a minha maneira. Para o show, o melhor é uma cachacinha, para ficar forte e valente. No show, o mais importante é a energia. Essas são partes da receita.

Cultura cannabis e legalização das drogas

Gosto de fumar maconha. Não sou maconheiro ou compulsivo, para mim é como tomar um bom vinho ou uma cerveja. Não tenho nenhuma dependência com maconha. É como um bom vinho, mexe com a espiritualidade e, mais importante, dá muita inspiração. Para escrever eu gosto. Para escrever canções, a maconha é uma boa assistente.

Qualquer coisa que você tome demais, seja vinho, cerveja ou maconha, pode ser ruim. Tem que ter controle, tem que ser bom para o corpo e para a mente. Tudo que é abusivo acaba fazendo mal. Não entendo o vinho ser legal e a maconha, ilegal. Não tem lógica. Milito pela legalização não só da maconha, mas de todas as drogas. Você pode encontrar drogas em frente a qualquer escola e essa é a maior prova que a proibição não está funcionando.

Além disso, dá muita grana para a máfia, e não gosto da máfia. A máfia é a inimiga da democracia. Por definição ela é anti-democrática. É a lei do mais forte. Eu sou militante da democracia. Acho que todos os governos democráticos que mantêm as drogas ilegais estão praticando um ato suicida, estão financiando de maneira muito forte gente que é anti-democrática. Máfia é ditadura. Em todo o mundo, cada vez a máfia está mais forte. Pode ser que no futuro as próximas ditaduras não sejam militares e, sim, mafiosas. E se você seguir alimentando essas organizações com tanto dinheiro, milhões e milhões, é perigoso para a democracia. A minha militância pela legalização das drogas é uma questão política. A ilegalidade das drogas é a democracia atirando no próprio pé.

Futuro da humanidade

Se o ser humano aprender a viver unido, com valores um pouco melhores, talvez se consiga deixar de lado essa ditadura da grana e da competitividade, para as coisas ficarem melhor. Do contrário, um dia a natureza vai se revoltar e a conseqüência não será boa. Se a ditadura da grana e da competitividade continuar do jeito que está, que mundo deixaremos para nossos filhos?

Fotos: Rogério Albuquerque/Agência Fotogarrafa.