Folha Online Brasil

SEXTA-FEIRA 14 DE DEZEMBRO DE 2007 ilustrada E9
M Ú S I C A
14/12/2007 – 09h36
Manu Chao se entusiasma com ebulição social na Venezuela Cantor franco-espanhol está entusiasmado com ebulição social na Venezuela, mas acha que Chávez está querendo aparecer demais.
SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL
« O que eu sei é que a avenida Paulista está para o lado de lá », diz Manu Chao quando questionado sobre o que acha de São Paulo. O músico franco-espanhol, que se sente em casa em várias metrópoles pelo mundo, levando-as para as letras de suas canções, sente-se perdido na « grande Babylon » brasileira. « Não sei me orientar aqui, mas gosto desta bagunça. »
Na cidade para participar de eventos de lançamento de seu mais recente CD, « La Radiolina », Manu Chao, 46, recebe a Folha para um papo num bar no Itaim. Não dá para saber se é uma dose de cachaça que o faz soltar a verve. A verdade é que o cantor estoura de longe os 20 minutos de entrevista estipulados com rigidez pela gravadora.
| Marlene Bergamo/Folha Imagem | |
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Em SP,
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| Manu Chao durante entrevista concedida na última quarta-feira, em bar do Itaim, em SP |
O músico que virou ídolo da juventude antiglobalização desde o finzinho do século 20 não larga a simpatia pelos movimentos de esquerda -e nem a camiseta vermelha. Como era de se esperar, está animado com a Venezuela.
« Não me interessa falar de Chávez, ele está querendo protagonizar demais e isso não é bom. Mas essa euforia popular é muito bonita. O país ferve de idéias e de esperança. »
Apesar do entusiasmo revolucionário, « La Radiolina » é um álbum mais variado. A política perde espaço para faixas melancólicas e canções independentes umas das outras.
O recurso de usar bases melódicas parecidas, comum nos anteriores « Próxima Estación: Esperanza » (2001) e « Radio Bemba Sound System » (2002), aqui surge contido.
« As pessoas vivem dizendo que sou repetitivo, porque faço menções e uso referências de músicas do passado. Mas não acho essa crítica pertinente. Primeiro porque não me sinto obrigado a me dobrar diante dessa « ditadura do novo ». Minhas canções que têm continuidade seguem uma idéia que vai além dos discos. Depois, « La Radiolina » tem canções fechadas em si mesmas. »
Na rua
Este é o caso de « Me Llaman Calle », a canção mais bacana do CD. Escrita para o filme « Princesas » (2005), do amigo espanhol Fernando León de Aranoa, a letra baseia-se no nome da protagonista, a prostituta Caye. Na canção, Caye vira « calle » (que significa rua), e Chao explora o universo da prostituição, também eixo da película.
« Foi uma música que saiu fácil, o nome da personagem desencadeou os versos automaticamente. » Com ela, ganhou o Prêmio Goya (o mais importante do cinema espanhol), mas não foi buscar a estatueta. Em seu lugar, mandou as moças cujas histórias o filme retrata. « Sou muito grato à experiência de gravar essa música. Passar algum tempo com as prostitutas me fez conhecer sua delicadeza e sua força para enfrentar tantas dificuldades. »
Chao considera que aqueles que tomam suas músicas meramente como panfletos políticos não a percebem por inteiro. O disco « Clandestino » (1998), que o projetou internacionalmente com a faixa-título e « Desaparecido », falava de questões então momentosas, a imigração -política ou econômica-, a falta de horizonte para os excluídos no Primeiro Mundo. Difícil não considerá-lo político, não?
« Mais ou menos, é a história da minha família, são letras autobiográficas. » Seu pai nasceu na Galícia, a mãe, em Bilbao. Ambos fugiram da Espanha para a França durante a ditadura de Franco (de 1939 a 1975).
Ele exemplifica com a letra de « Desaparecido », do mesmo disco. Ela diz: « Me llaman el desaparecido, que cuando llega ya se ha ido ». « Esse sou eu. A vizinha de meu pai, na Galícia, sempre que chego para visitá-lo, diz: « Aí vem o desaparecido. Ou seja, sou eu, apenas um sujeito que não pára num lugar ».
Mas a leitura política é inevitável em alguns lugares, como a Argentina. As pessoas logo associam a idéia de « desaparecido » com as vítimas da ditadura militar. « Natural, pois muita gente morreu assim lá. Mas não me importo com as leituras e interpretações que estão além do que eu escrevi. Isso é o bonito de fazer música. Saber que as pessoas entendem outras coisas a partir de suas idéias », diz.
Assumidamente engajadas no álbum são « Politik Kills » e « Rainin » in Paradize », que faz referências à Guerra do Iraque.
Ambas lembram, musicalmente, trabalhos do Mano Negra, grupo formado por Chao, o irmão e um primo. Existiu entre 1987 e 1995 e inovou ao misturar reggae e rock, sempre com uma levada enérgica.
O Mano Negra bebeu muito na fonte punk do The Clash, especialmente de trabalhos com fundo hispânico e latino-americano, como o álbum « Sandinista! » ou canções como « Spanish Bombs ». « Aprendi muito no Mano Negra, e o que há de punk do meu trabalho hoje deve muito a isso. Meus shows são punk, o Clash, de algum modo, está sempre presente. »
Downloads
Sobre os efeitos que o download de música pela internet está causando no mercado, Chao se diz dividido. « Depende. Para mim ou para o Radiohead, não faz diferença soltar músicas na internet. Mas as bandas novas terão mais dificuldade. Não por causa da tecnologia, a que todos têm acesso, mas porque a distribuição ainda é limitada. O que dizer dessa chamada « democratização » que a rede provoca quando 80% das músicas baixadas são por um único sistema, o iTunes, que pertence a uma grande corporação? »
Uma transformação que vê como inevitável diz respeito à formação das bandas. Se antes para formar um grupo de rock eram necessários apenas um baixista, um baterista, um guitarrista e um cantor, diz, agora a situação é outra.
« O cara que controla a música, que opera o computador, é um novo componente indispensável numa banda. »
Além disso, conclui, a única fórmula de sobrevivência no mundo da música hoje é fazer shows. « Para mim, é um prazer, nunca um problema. Mas para os que são excelentes músicos só dentro do estúdio, será mais difícil, terão de se expor mais. Mas é a nova regra do jogo. »
« O que dizer
dessa chamada
« democratização » que a
rede provoca quando
80% das músicas
baixadas são por um
único sistema, o
i Tunes, que pertence
a uma grande
corporação?
Não me interessa falar
de Chávez, ele está
querendo protagonizar
demais e isso não é
bom. Mas essa euforia
popular é muito bonita.
O país ferve de
idéias e de esperança.
Não me importo com
interpretações que estão além do que
escrevi. Isso é o bonito
de fazer música. Saber
que as pessoas
entendem outras
coisas a partir de
suas idéias »
MANU CHAO, cantor e compositor.


