19/01/08

O discreto charme de Manu Chao

Correio da Bahia

19/1/2008

O discreto charme de Manu Chao
O cantor franco-espanhol deu um show à parte, anteontem, no Festival de Verão
Marcos Uzel

O som mais arrepiante da noite ecoou sem estardalhaços em um espaço alternativo. Foi no Palco Tendências, longe das multidões e dos camarotes, que o franco-espanhol Manu Chao, brilhante e discreto, arrebentou como convidado especial da banda 3BRio, marcando com pura vibração negra o segundo dia do Festival de Verão Salvador. « Isso é classe A », resumiu bem o ex-Planet Hemp BNegão, um dos anfitriões do show de anteontem, movido a reggae, ska, funk até o caroço e samba de terreiro.

O aperitivo oferecido por Manu Chao foi mais farto do que se poderia esperar de uma canja. Em clima de brodagem com BNegão e seus companheiros de palco, Bi Ribeiro, Bidu Cordeiro e o convidado Thiago Silva, o cantor puxou o saboroso reggae Clandestino e se juntou à « parada de música popular jamaicana » da 3BRio. « Obrigado, galera! », agradeceu o artista de poucas palavras, num show que saudou Chico Science, Nação Zumbi e Jovelina Pérola Negra.

Chao demarcou seu espaço numa noite pipocante e com direito às mais variadas pulsações: da batida eletrônica do DJ Patife ao suingado samba-rock de Seu Jorge e o elegante convidado Luiz Melodia; do pagodão da Guig Ghetto à banda Aviões do Forró com um rala-coxa às 3h da madrugada; do Carnaval da Cheiro de Amor lá pelas 4h da manhã ao rock da banda gaúcha Cachorro Grande: « A gente está longe de casa, chega aqui e as pessoas conhecem as nossas músicas. Isso não tem preço! », jogou pra cima o vocalista Beto Bruno, por volta das 2h30.

Também não faltou a tietagem nas imediações do backstage, por onde passavam os artistas ao sair do camarim. No gargarejo do Palco 2008, uma legião de fãs deu os primeiros gritos calorosos da noite, ávida pela entrada da banda paulista NXZero. « Tá todo mundo pronto pra se divertir? Isso aqui é uma responsa! », saudou o vocalista Di Ferrero. O grupo cumpriu, com muita competência, a promessa feita ao Folha pelo baterista Daniel Weksler de um show « barulhento e ensurdecedor ».

Com o profissionalismo de sempre, Daniela Mercury se muniu de cerca de cem pessoas para realizar um show em comemoração aos 15 anos de O canto da cidade, a música que a consagrou nacionalmente e lhe ajudou a vender dois milhões de discos.

Chegou a usar as indefectíveis luvas que compunham seu figurino em 1992, numa alusão afetiva. E chorou ao recordar a própria trajetória. Acompanhada por Seu Jorge, as meninas da Didá e muitos bailarinos, Daniela voltou a reverenciar o samba-reggae, deu ênfase à linguagem da dança e se despediu interpretando o Hino do Senhor do Bonfim, em dia de festa na Colina Sagrada.

O Chicletão velho de guerra atraiu a multidão de sempre. « Se você é chicleteiro, Deus te abençoa. Se você não é, Deus te perdoa », repetiu, mais uma vez, o veterano Bell Marques, citando a estrofe que atesta muito bem a paixão do público pela banda. E que paixão! Os velhos cartazes de saudação, os coros estrondosos para cada música e o novo sucesso A fila anda já na ponta da língua reafirmaram esse caso de amor. Um bem-sucedido casamento de mais de 20 anos, para deleite da banda e alegria novamente renovada de uma multidão de chicleteiros fiéis.