19/12/07

O globo – Brasil

2 - SEGUNDO CADERNOO GLOBO Segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Cervejinha, medicina alternativa e

Maradona se juntam em Manu Chao

Em discurso e projetos, cantor é fiel às idéias de ‘La radiolina’, seu novo CD

Leonardo Lichote

Luiz Morier

MANU CHAO quer tocar no Rio em Janeiro, com amigos cariocas

Manu Chao esteve rapidamente no Rio na semana passada. A viagem teve motivos profissionais – divulgar seu recém-lançado CD « La radiolina » (Warner). Não foi encarada assim, porém, pelo cantor francoespanhol.

Em sua curta estada em solo carioca, mais como um nativo que volta para casa do que alguém que venha « a negócios », ele foi reencontrar amigos e circular por bares da Lapa.

- É bom voltar a cheirar o ar do boteco, tomar uma cervejinha, ver que o Rio ainda está aí – diz num português que une sotaques estrangeiro e carioca.

Músico deseja estudar medicina no futuro

Chao, porém, não se diz ou se sente carioca.

Desde os tempos da banda Mano Negra, no Início de carreira, ele gosta de pensar que está em casa em muitos lugares.

Como seus trabalhos anteriores, « La radiolina » deixa claro seu sentimento de cidadão do mundo. Canta em espanhol, inglês, francês e português, mistura melodias de mariachis, o novo (nem tanto) rock novaiorquino do Strokes, violões ciganos, ritmos africanos. « Me chamam rua », diz um verso do CD.

Mais que uma colcha de retalhos, porém, a variedade de referências resulta numa assinatura própria – para o bem e para o mal, facilmente reconhecível.

- É difícil explicar como isso se mistura em mim. Afinal, viajo desde os 17 anos, quando arguei tudo para rodar pela América Latina. É engraçado ver que abandonei a universidade e acabei me formando na melhor universidade, o mundo – afirma, acrescentando que pretende voltar aos bancos escolares. -

No futuro, quando parar com a música, quero estudar medicina, dedicar-me à quiroprática.

A mudança não seria tão radical quanto parece. Em sua música, em seu discurso e em suas atitudes há algo de medicina alternativa contra o que vê como doenças do mundo. Em « La radiolina », elas estão lá: Bush, os políticos, a guerra e até a Fifa (« o grande ladrão », na canção que exalta Maradona). Em meio a eles, desenha seu modelo de mundo saudável em « Otro mundo », uma « Imagine » latina.

- Quando faço música torno o mundo um pouco mais aceitável para mim – explica, completando que não acha que isso baste. – A tarefa de melhorar as coisas não é dos músicos, é de taxistas, universitários… E jogadores de futebol, que têm poder de influenciar e quase sempre falam apenas que « o professor mandou… ». Por isso é bom termos gente como Maradona.

Querido em fóruns sociais, onde é visto como um promotor da « globalização do bem », o cantor não gosta de pensar que faz uma arte de esquerda.

- Canto a surpresa de cada dia. A fronteira entre direita e esquerda é difusa. O importante não é isso, é a grana. Se ela não for dividida, vai acabar tudo. Os países ricos querem fechar as fronteiras, um suicídio. A Europa é velha, precisa da juventude que está fora. Mas se mantém fechada porque prefere empregar o clandestino, mais barato.

Alma de viajante e olhar alternativo, Chao trabalha em dois projetos musicais, em diferentes pontos do globo. Em Buenos Aires, grava um CD com o La Colifata, formado por internos de um hospital psquiátrico – eles aparecem a seu lado no clipe de « Rainin in paradize », dirigido por Emir Kusturica. No Mali, ele produz o disco do Smod, grupo de hip hop que tem entre seus membros o filho dos músicos Amadou e Marian (« Eles fazem hip hop sem o equipamento, a base é no violão »).

Chao vai passar o fim de ano em Fortaleza, com seu filho brasileiro.

Mas depois volta ao Rio. Então, diz que vai dar um jeito de se apresentar na cidade, montando uma banda com amigos cariocas. Há alguns anos, trocou figurinhas com nomes como Kassin e Marcelo Yuka.

- Era o Berimbau Futebol Clube. Gravamos algo, temos que retomar qualquer hora. _